sábado, 16 de março de 2013

O respeito a crença e a fé de cada um!


Este colunista não entende a polêmica a respeito das necessidades da igreja católica. Com seus dois mil anos de vida, com mais de um bilhão de seguidores, a igreja sabe perfeitamente do que precisa para continuar sua jornada, e pode dispensar palpites de quem mal sabe a diferença entre um báculo e uma hóstia. Os cardeais são selecionados pela inteligência, conhecimentos, visão política, capacidade de articulação (pois, se não a tivessem, não chegariam lá). Quantos não cardeais poderiam enfrentar cardeais num debate?

A igreja católica, apostólica, romana, é o que é; quem não a aprecia, quem discorda de seus ensinamentos, não é obrigado a segui-la. Se o cavalheiro acredita que o fenômeno da transubstanciação é impossível e não existe, não é católico; se não acredita nos ensinamentos de Jesus, católico não é. Exigir que a igreja se transforme para atender aos anseios de cada um para então segui-la é excesso de soberba.

Caso não queira segui-la, ou siga apenas alguns de seus ensinamentos e dogmas, tudo bem, é questão de escolha pessoal. Este colunista, como judeu, acompanha o debate teológico da igreja católica à distância, apenas para estar informado. Se a igreja desaprova o uso da camisinha e rejeita o casamento entre pessoas do mesmo sexo, é questão da igreja, e não influi nem sobre o comportamento nem sobre a opinião do colunista. Ler textos em que pessoas se consideram perseguidas pessoalmente por ser homossexuais ou por ter feito um aborto e exigem que a igreja mude para atendê-las é muito cansativo, incompreensível.

A igreja, certamente, não deve interferir na vida civil, tentando impor suas ideias a quem não seja católico ou não queira segui-las; que emita normas religiosas, para quem as aceita, sem querer adaptar a suas teses as leis de um Estado laico. E quem quiser viver sem levar em conta as ideias da Igreja que seja livre para fazê-lo, independentemente da opinião do papa, dos cardeais ou dos bispos.

Por isso é difícil entender os partidos pró-Bento 16 e contra Bento 16 que proliferam nos meios de comunicação - há textos em que o ódio à Igreja transparece, como um que reclama daquele fio de fumaça negra quando o novo papa não foi eleito e o fio de fumaça branca quando o novo papa é escolhido (na opinião do comentarista, isso contribui para a poluição e deveria ser eliminado).

Que cada um siga seu caminho, pronto. Aliás, este colunista vai ainda mais longe: há corrupção no Vaticano? Deve haver, claro: uma organização deste tamanho dificilmente estaria imune aos pecados do mundo. Mas este é um problema do Vaticano, não de quem esteja de fora. Como dizia um jornalista de alta linhagem, o José Carlos Del Fiol, que foi subsecretário de Redação da Folha de S.Paulo por muitos e muitos anos, se o dinheiro não é seu nem meu, por que vamos nos preocupar com ele?

Deve haver corrupção, deve haver pessoas da mais alta hierarquia envolvidas com atos antissociais, deve haver gente insuspeitíssima cometendo crimes (aliás, numa organização que teve o papa Borgia e sobreviveu a ele, por que pessoas hierarquicamente inferiores não teriam deslizes de menor ou maior gravidade?)

Há, claro (e muitos casos já foram revelados publicamente), inúmeros e horrendos episódios de pedofilia - e não é pagando indenizações, como tem ocorrido com frequência, que se obterá o esquecimento desses crimes. É com julgamentos civis, condenações aos culpados, tudo associado à perda de prerrogativas eclesiásticas.

Mas a igreja católica não teria sobrevivido durante tanto tempo se fosse apenas isso: é também uma fonte de fé para muitas pessoas, é também um exemplo de apreço à cultura, às artes e às letras. Música, escultura, pintura, arquitetura, tudo da melhor qualidade, nasceu em função da igreja católica; foram monges católicos que, enclausurados em seus mosteiros, copiaram obras clássicas e permitiram que chegassem a nós.

Não gosta do papa? Continue não gostando. Não gosta da linha da igreja? Não a siga. Acredita em outra divindade? Sem problemas. Discorda do celibato dos sacerdotes? Não queira ser sacerdote - deixe esta função para quem aceite as normas disciplinares a ele impostas. Mas gastar o papel tão caro de jornais e revistas e desperdiçar a paciência do consumidor de informação por achar que uma instituição com dois mil anos de idade e um bilhão e meio de seguidores tem de se adaptar às suas preferências pessoais, convenhamos, é meio muito.

 Texto de  Carlos Brickmann em 19/02/2013

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